Quebra-Cabeças #015
Elogios e etnografia, por que «All Her Fault» não presta, e Chvrches
O retorno — Ao escrever as «Dicas de compras literárias» da newsletter passada, lembrei do imenso prazer que sinto em escrever textos curtos e me libertei um pouco da obrigação de sempre oferecer três mil palavras aos assinantes. Muito acaba se perdendo assim. Voltemos ao Quebra-Cabeças, que ganhou esse nome porque eu estava ouvindo, na época em que comecei, a canção «Rompecabezas», do duo argentino Ainda. E já posso começar lembrando, ou dizendo, que em espanhol não existe a palavra «ainda»; o nome do duo é uma palavra portuguesa mesmo. «Ainda», em espanhol, é todavía, e são esses falsos cognatos que muitas vezes me fazem pensar que é mais fácil aprender italiano do que espanhol… O italiano é um pouco mais «estranho» e você fica menos à mercê das falsas semelhanças.
Quem elogia? — Ontem no Seminário de Retórica (e a gravação já está disponível na comunidade) discutimos o discurso que Aristóteles chama de «epidíctico», voltado para elogiar ou censurar. E, como sempre quero perguntar onde estão os discursos retóricos hoje, tive de perguntar em que circunstâncias, hoje, encontramos discursos elogiosos ou de censura.
Ao menos cá no Brasil temos uma tradição de evitar falar mal. Se falamos mal de algo ou de alguém, então vamos falar mal mesmo, isto é, dizer que estamos diante do horror e das trevas. Esses são os livros e artigos que surgiram nos últimos anos sobre a direita: não eram textos de censura, porque você só vai censurar quem partilha os mesmos pressupostos que você. Eram textos que volta e meia se apresentavam como «etnográficos», descrevendo os selvagens de Bonga-Bonga que no entanto frequentavam igrejas evangélicas. O texto de censura abre a possibilidade de um diálogo, mas a etnografia desse outro tão outro existe para vedar higienicamente qualquer possibilidade de diálogo. É um discurso feito para funcionar apenas com as pessoas que já concordam com ele, uma espécie de mamadeira mental para o bebê que está chorando ao imaginar o bicho-papão embaixo da sua cama.

Mas eu ia falar de quem elogia. O trecho da Retórica em que Aristóteles fala do discurso de elogio ou de censura é todo voltado para a ideia de honra. Honra é diferente de glória — distinção que discutimos muito ontem. A honra é algo devido, seja à posição na hierarquia, seja ao mérito. Honras são dadas às altas autoridades na forma de um certo respeito solene e também ao esportista que fica nos primeiros lugares na forma de medalhas. A glória, por outro lado, a doxa (e sim, doxa também tem o sentido de «opinião», mas veja o dicionário: tem o sentido de «reputação», e nos Evangelhos a glória é sempre doxa), é a boa opinião que os outros têm de você — e, num aparte religioso, lembremos que o cristianismo é baseado na glória, na promessa da glória, não na honra.
Pois bem. Quem, numa situação minimamente formal, produz então discursos elogiosos? Como sei que as Olimpíadas modernas não têm seus poetas a cantar as façanhas dos atletas, perguntei-me se o prêmio Nobel de Literatura não nos daria ao menos alguns parágrafos de elogio aos premiados, e o que encontrei foi, digamos, um pouco mais do que decepcionante. O site oficial do prêmio Nobel não nos dá mais do que uma frase, tão oca quanto pomposa:
Lászlo Krasznahorkai, «por sua obra emocionante e visionária que, em meio ao terror apocalíptico, reafirma a força da arte.»
Han Kang, «por sua intensa prosa poética que confronta traumas históricos e expõe a fragilidade da vida humana.»
Jon Fosse, «por sua prosa e por suas peças inovadoras que dão voz ao indizível.»
Annie Ernaux, «pela coragem e pela acuidade clínica com que ela desenterra as raízes, os distanciamentos e os controles coletivos da memória pessoal.»
Abdulrazak Gurnah, «por sua penetração compassiva e sem concessões dos efeitos do colonialismo e do destino do refugiado no golfo entre culturas e continentes».
Louise Glück, «por sua voz poética inconfundível que, com austera beleza, universaliza a existência individual».
Alice Munro, «mestre do conto contemporâneo».
Terminei com a Alice Munro porque traduzi três de seus livros. Mas o leitor não concorda que cada vencedor merecia algumas palavras a mais? Até mesmo em certos esportes os juízes dão notas para quesitos pré-determinados. Um desfile de escola de samba recebe uma pontuação complexa. (E, enfim, trocamos os discursos elogiosos por pontuações…) Mas o prêmio Nobel de literatura não podia explicar um pouco melhor a concessão do prêmio, na forma de um elogio detalhado?
A conclusão a que chegamos, enfim, é que se você quiser encontrar discursos propriamente elogiosos, hoje, precisa ir ver resenhas de produtos no YouTube. Procure um YouTubeiro falando do MacBook Neo para um discurso elogioso e retórico: dirigido à razão, voltado para o objeto e não para as questões de moda ou de identidade ligadas ao objeto.
All Her Fault — E, falando em falar mal, foi com a pura força do ódio que aqui em casa terminamos de ver All Her Fault, «Tudo culpa dela», a última série-sensação a ter chegado à Amazon.
O problema da série é bem simples. Ela é baseada no recurso dramático da surpresa. Hitchcock explica a diferença entre o suspense e a surpresa no seu livro-entrevista com Truffaut: suspense é o público saber algo que os personagens não sabem, surpresa é nem o público nem os personagens saberem. Se o público vê um personagem escondendo uma bomba de outros personagens, temos suspense. Se uma bomba explode do nada sem que ninguém saiba de onde veio, temos a surpresa.
A surpresa, é claro, pode virar uma cartola sem fundo, da qual os roteiristas podem tirar coelhos sem fim. Há um limite para o número de coelhos. No meio de All Her Fault, uma série sobre o sequestro de uma criança, você já começa a imaginar que no fim será revelada uma conspiração alienígena, que tudo não passa de uma simulação, que absolutamente tudo em que os personagens acreditam se revele uma mentira, como no genial esquete «O mundo é falso!», da TV Pirata.
Oscar Wilde, aliás, escreveu uma peça inteira para parodiar o abuso da surpresa: The Importance of Being Earnest, que você também pode ver no divertido filme com Rupert Everett.
Sim, All Her Fault fez sucesso por mostrar maridos que não se ocupam da criação dos filhos enquanto as mulheres tentam equilibrar tudo. Mas a curadoria moral não pode substituir a boa dramaturgia.
Chvrches — Meus «Quebra-Cabeças» costumavam terminar com o vídeo de uma música. Pois bem: há poucos dias descobri a banda escocesa Chvrches ao ver no YouTube se haveria alguma versão moderna de «The Killing Moon», do Echo & The Bunnymen, que tocava muito no rádio dans ma jeunesse. Encontrei a versão do Chvrches e fiquei intrigado.
Entre as várias canções-chiclete que tocam na minha cabeça até mesmo quando estou dormindo (é verdade: desde que cortei o café, toda noite de sono parece uma noite de sonhos ininterruptos; um dia, talvez, eu saiba o que é dormir), deixo a melancólica «Graffiti», que fala de um casal adolescente escrevendo seus nomes nas cabines dos banheiros.


