Retórica como terapia
E as dificuldades de querer algo só por seus efeitos benéficos
Hoje, 7 de fevereiro, começamos na Comunidade Mímesis (que é algo diferente desta newsletter!) o Seminário de Retórica.
Vamos ler a Retórica de Aristóteles, discutir exemplos, e, quem sabe, produzir nossos próprios textos.
O envio anterior da newsletter contém mais informações.
A «vida intelectual» como hiperintenção
Muitas vezes, depois que escrevo um texto que me dá muito trabalho, como a proposta do Seminário de Retórica que começa hoje (07/02) às 16h (as gravações ficam disponíveis, claro), vem a vontade de escrever outro texto, um tanto mais solto e informal, em que falo dos temas que estavam como que rodando em background na minha cabeça enquanto eu escrevia. Este é um deles. Não é uma peça muito calculada; é quase um retrato de um pensamento.
Quando comecei a realmente postar no Instagram, creio em que em 2019, fiquei impressionado com a obsessão pela «vida intelectual», buscada como se fosse um objetivo em si mesma. Era como se você não apenas pudesse, mas devesse ter uma «vida intelectual». Seria uma espécie de obrigação moral dos bons cristãos burgueses, aqueles que devem acordar às cinco da manhã, malhar pesado, e «trabalhar enquanto eles dormem».
Seria muito fácil simplesmente dizer que, de certo modo, isso existe desde a Grécia antiga. Os ricos aprendiam retórica e a ensinavam aos filhos; os ricos tentavam não parecer bárbaros. Os romanos, depois, escravizavam intelectuais gregos também para adquirirem seu verniz. E a burguesia moderna, antepassada da nossa, cultivou-se para deixar de ser tosca. No mais, tirando aquela parte da escravidão, em si não há nada de errado em querer falar direito e demonstrar algum contato com algumas grandes obras. Afinal, você poderia ter interesses muito mais improdutivos, como o interesse por canetas-tinteiro.
A questão é que, se você pensar do ponto de vista da logoterapia de Viktor Frankl, a «vida intelectual» é aquilo que é classificado como «hiperintenção». Ter uma hiperintenção significa desejar algo que não pode ser desejado diretamente, porque é a decorrência de outra finalidade. Frankl trata do orgasmo ao falar da hiperintenção: ele é a decorrência de um ato, mas não pode ser buscado como finalidade.
A ideia da hiperintenção pode ser aplicada em diversos domínios. Você não pode relaxar, por exemplo, tentando relaxar, porque relaxar é esquecer de si mesmo um pouco. Você pode procurar aquilo que é relaxante — um banho na banheira, uma taça de vinho, uma caminhada ao sol, o que for — e, às vezes, você vai relaxar, mas às vezes não. Existe aí uma certa mágica, que por sua vez depende de um certo abandono.
Desde essa perspectiva, «vida intelectual» seria apenas o nome de algo que acontece se você lê livros e pensa neles; vê filmes e pensa neles; vê quadros e pensa neles; etc. Se você tem contato com alguma obra intelectual, pensa nela, e tenta expressar suas impressões, você tem «vida intelectual». Nisso incluo, é claro, obras da culinária, da engenharia… Se você reflete sobre o que faz, sobre aquilo que vê, etc., você tem «vida intelectual».
(E vale explicar que uma expressão que em português é absolutamente pomposa, a «vida do espírito», é apenas um galicismo, uma tradução literal da vie de l’esprit. Em francês a vie de l’esprit indica apenas essa vida intelectual de que falei há pouco, a vida cultural, de livros, arte, conversas, debates. Em francês, a palavra esprit é muito comum e muito difícil de traduzir, mas no mais das vezes ela indica a mente, o intelecto, e não algo mais rarefeito ou superior.)
Agora, alguns de nós temos um pendor espontâneo para certas atividades que são rotuladas socialmente de «intelectuais». Mas o que nos interessa nessas atividades são os temas, as questões. No meu caso: a teoria mimética, a possibilidade de representar X ou Y pela escrita… Eu não busquei a «vida intelectual» e vim parar aqui. Essas questões me pegaram e, por isso, outras pessoas podem dizer que eu tenho «vida intelectual», embora eu mesmo acredite, sinceramente, que um cozinheiro que reflete sobre a culinária também tenha «vida intelectual».
Por isso que há tantos anos digo no Instagram: sim, estude, mas estude se você tem uma questão, uma pergunta, um tema, se estiver em busca de uma resposta. Leia um livro se tiver interesse. Se você quiser ter «vida intelectual», se puser essa finalidade na frente, então vai ser como você querer desenvolver uma barriga de tanquinho sem nem se perguntar se tem tanto interesse assim em dietas e em abdominais. O formato do corpo deve ser a decorrência, o reflexo da busca de outro objetivo. Do contrário, será uma hiperintenção.
Você acha que é debate, mas não é
Porém, ao pensar na retórica, eu não conseguia deixar de pensar em efeitos colaterais positivos — tão positivos que fiquei com medo de cair na hiperintenção de Viktor Frankl, porque esses efeitos me parecem sumamente desejáveis. Aqui me refiro aos efeitos verdadeiramente terapêuticos do estudo da retórica.
A situação que pensamos em retórica e, muitas vezes, pensamos em debate. E achamos que as conversas informais que temos têm algo de debate, quando elas na verdade estão sempre a um milímetro do bate-boca.
Numa mesa com amigos, com colegas de faculdade, de escola, numa reunião de família, alguém diz A e outra pessoa diz não-A. Rapidamente a situação degringola e os dois lados começam a dizer absurdos que — eis um ponto importantíssimo — não têm nada a ver com o que você disse inicialmente. As palavras são tratadas como acusações, como gols marcados no placar.
Talvez nossa memória seja melhor para os absurdos que já ouvimos, mas é só pensar nisso para se dar conta de que, enfim, outras pessoas devem se lembrar muito bem das pérolas que já dissemos nesses momentos de exaltação.
Como eu também tenho a memória seletiva e só lembro de mim mesmo calmo e composto, um verdadeiro sábio de Copacabana, não vou reproduzir as pérolas que já ouvi de outras pessoas. Mas recordo que muitos desses embates dizem respeito a situações hipótéticas. Você diz que acha que as coisas devem ser assim, outra pessoa acha que devem ser assado, nenhum dos dois se dá ao trabalho de buscar os fatos, que, ontem, estavam a uma googlada de distância.
(«Ontem» porque hoje estão a uma googlada seguida de uma scrollada para cima, até que desapareça o resumo tantas vezes insano da inteligência artificial. Se me perguntam porque não uso nenhuma inteligência artificial, esses resultados do Google Gemini são a primeira resposta. A segunda é que nas vezes em que fui ver um resumo de IA de uma aula minha, achei o resumo tão louco que só o comentaria mediante o pagamento prévio, sem reembolso, de mil dólares por cinco minutos de comentário.)
Essas discussões nonsense, dignas de Aristófanes e de Molière, foram meu primeiro passo para entender aquilo que, na teoria mimética, é chamado de «desaparecimento do objeto». O objeto existe. São os fatos. Ou ao menos algum conhecimento objetivo. Porém, para ganhar uma discussão, você está disposto a dizer qualquer coisa, sendo que a primeira delas é mudar de assunto. Desaparece a afirmação inicial. Desaparecem os fatos. Desaprece o objeto. Quanto mais quente a briga, menos seu ponto de partida importa.
As palavras funcionam como gatilhos. Ok, falei que não ia dizer nada dos outros, mas me ocorreu o exemplo perfeito. Que o momento ridículo do meu interlocutor não seja em vão. Falemos do gatilho.
Traduzi vários livros que nunca foram publicados. Um deles foi a biografia do general Júkov, o russo que foi o primeiro a chegar a Berlim na Segunda Guerra Mundial, um dos grandes responsáveis pela derrota dos nazistas. Foi traduzindo o livro que conheci diversos crimes de guerra de Stálin, e que soube que seus generais tinham ordens para chegar a Berlim antes dos ocidentais de qualquer jeito, não importando quantas tropas fossem sacrificadas. Isso tudo só para poder dizer que a União Soviética tinha chegado primeiro.
Contei isso numa mesa, e imediatamente a pessoa ao meu lado teve um surto pró-URSS, como se eu estivesse negando que, ora, de fato, a URSS tivesse chegado primeiro a Berlim.
Como eu já era gato escaldado, apenas sorri um pouco perplexo enquanto meu interlocutor julgava estar plantando a bandeira soviética na minha cabeça. Nesses momentos, o melhor é desescalar. Até porque, enfim, que diferença fará na minha vida que outra pessoa não aceite relativizar um pouco o sucesso militar soviético?
Sei bem que meu exemplo pode ser até muito brando diante de diversos outros temas explosivos, sobretudo da política do dia-a-dia e da religião. Mas acho que desde o fim dos anos 1990 não tenho nenhuma altercação relacionada a esses temas.
A retórica como terapia
Agora pensemos nessa situação desde um ponto de vista retórico.
Primeiro, nenhuma situação informal é propícia para a retórica. Todos conhecemos a conversa em que todos querem falar mas ninguém quer ouvir. Por outro lado, numa situação formal, há o momento de falar e o momento de ouvir. E, na situação informal, você muitas vezes fala sem pensar direito, compartilha algo que veio à cabeça, fala sem cálculo — e essa é a intenção, aliás. Desde que a conversa não seja competitiva demais, você pode relaxar, descontrair.
Imagine, porém, que você simplesmente freasse esse instinto de falar sem pensar e também o de responder sem pensar. Imagine que você, enfim, não cedesse ao gatilho. Você poderia se perguntar: isso que eu estou ouvindo, ou que quero dizer, realmente importa para mim? Importa a ponto de eu querer investir algum tempinho de pesquisa?
Você vai atrás dos fatos, dos melhores argumentos, e inevitavelmente faz um exame pessoal. Talvez você até discorde da sua posição inicial, mas o certo é que essa posição inicial vai ficar um pouco mais refinada, mais precisa, e por isso mesmo mais relativizada, moderada, complexa — e você mesmo vai ser obrigado a adquirir a serenidade necessária para lidar com isso.
Voltemos ao exemplo. Sozinha, a afirmação «a União Soviética foi a primeira a chegar a Berlim» pode ser uma afirmação factual, e esse fato pode ser também usado como propaganda. Ela vai encher o ego dos nostálgicos da União Soviética ou de qualquer pessoa que deseje relativizar o poderio dos EUA. Agora, a afirmação «a União Soviética foi a primeira a chegar a Berlim, tendo para isso cometido diversos crimes contra suas próprias tropas» pode ser igualmente factual, mas perdeu qualquer valor de propaganda ou de apoio ao ego do torcedor. Não foram os fatos que mudaram, nem a verdade: foi a pessoa que os enunciou. Agora o amor dela pela União Soviética se tornou um pouco mais complexo.
Isso significa que ela terá de obter argumentos melhores, porque a afirmação de propaganda pode ser aceita e celebrada pelos calouros de DCE de Sociologia na Federal, mas fora dali talvez provoque alguns bocejos.
Sem contar que você pode iniciar um processo terapêutico, socrático, ali mesmo. Por que você quer tanto assim defender a União Soviética? Sim, claro, você dirá que é o amor pela verdade, pelos fatos, mas será mesmo? Ah. Na verdade você tem uma certa repugnância pelo estilo de vida dos países capitalistas, e gostaria que a União Soviética representasse uma alternativa. Talvez seja isso. E quando você fala dessa repugnância, o que está por baixo dela? Você pode ir escavando, e escavando, e voltar dessa escavação totalmente transformado, com um senso de justiça bem distinto daquele que tinha antes.
E tudo porque você queria ganhar uma discussão.
Se você ainda quiser «ganhar discussões», você pode se perguntar se quer isso mesmo. Mas, com um senso de justiça transformado, com verdades que você conquistou duramente, que são «pensamentos idos e vividos» como no soneto de Machado de Assis, você pode perceber: eis algo importante que eu tenho de comunicar aos outros. Tão importante que não posso hostilizar esses outros: eu preciso convencê-los. Para isso, você começa a estudar amorosamente essas pessoas, a entender o que elas pensam, quais os pontos de partida delas, quais os gatilhos delas. Afinal, você tem os seus, e elas têm os delas. Quem está querendo ser ouvido é você. O ônus é seu.
O simples trabalho de elaborar um argumento que possa ser ouvido até o fim por pessoas diferentes vai obrigar você a ser mais claro. Não apenas a ter clareza de si para si, mas para os outros. Você vai ter de examinar os problemas de diversos lados. Vai ter de admitir que há coisas que fazem sentido para os outros e que escapam absolutamente à sua percepção. Fazer esse exame e lidar bem com essa perplexidade é a mesma coisa que deixar de ser caipira.
Se digo, enfim, que o estudo da retórica acaba tendo um efeito terapêutico, quero dizer que não se trata apenas de um estudo objetivo. Não estou falando de ter os melhores fatos (talvez eles sejam inassimiláveis pela plateia), os argumentos mais sofisticados (talvez a plateia não consiga acompanhá-los, porque são argumentos técnicos especializados demais), e muito menos estou falando da capacidade de sempre fazer a pior interpretação possível dos argumentos adversários, porque sempre há um jeito de reformular qualquer coisa de modo a que soe como uma acusação ou como uma admissão de uma culpa terrível.
Estou falando de manter-se tranquilo, de examinar as próprias motivações, de refinar seu senso de justiça, de lidar com a perplexidade diante do incompreensível. Essas são qualidades psicológicas que decorrem da sua busca por defender de modo eficaz algo que você sinceramente julga ser verdade. Como numa terapia, não consigo ver essas qualidades sendo buscadas diretamente. O que você busca é uma defesa eficaz da verdade, e essa busca nasce da sensação de fracasso, de choque — o que, por sua vez, também costuma ser o que leva uma pessoa a consultar um psicoterapeuta. Em vez de atribuir a culpa aos outros — por que eles não me dão ouvidos? —, você se pergunta: como eu poderia dizer o que gostaria de dizer e ser ouvido?
Você ainda vai encontrar outros limites, alguns perpetuamente frustrantes. Como falei, nenhuma situação informal, nenhuma mesa na cantina da faculdade, é propícia para uma argumentação rigorosa. A retórica não é relaxante, e não é para argumentar que as pessoas se sentam diante da comida, mas para relaxar. Assim, você vai precisar encontrar seu público, e ele pode estar num congresso universitário (dificilmente estará na sala de aula), ou pode estar aqui no Substack.
Mas, como falei, acaba havendo um paradoxo: a retórica não é relaxante, mas a busca por um bom argumento retórico acaba deixando você mais relaxado entre as incertezas, entre as verdades que não se prestam à propaganda. E, como você não sente mais aquela necessidade amadora de marcar sua posição nas situações informais que estão sempre a um milímetro do bate-boca — assim como uma festa só precisa de um pequeno incidente para virar uma pancadaria —, você pode relaxar nelas também. Você encontrou o que dizer, para quem dizer, quando dizer. Isso significa que você também encontrou a hora de calar a boca — e tudo bem.


Enquanto lia, pensei comigo mesmo: quando me tornar adulto, quero viver minha vida sob o efeito terapêutico da retórica! Baita texto!