161 «Um momo chamado desejo»
A tentativa de formalizar uma psicologia mimética ou «interdividual»
Abaixo das informações sobre o Seminário, um texto sobre Um momo chamado desejo.
Informações
— O primeiro Seminário de Teoria Mimética de 2025 será como um «clube do livro». Vamos ler ao longo de seis ou oito sessões Um momo chamado desejo, de Jean-Michel Oughourlian, que foi traduzido por mim para a Vide Editorial.
— As primeiras sessões serão às quartas às 19h30, a partir do dia 14/01, pelo Google Meet. O link de cada reunião será disponibilizado na seção «Quadro de Avisos».
— Teremos em algum momento uma conversa (provavelmente em inglês, embora ele também fale espanhol) com o próprio Oughourlian, que já aceitou o convite.
— Para participar, basta que você se inscreva na comunidade Mímesis: a assinatura mensal é de R$ 97,77, e você pode cancelá-la quando quiser. As gravações ficarão disponíveis, e já estão disponíveis na plataforma todas as gravações de todos os Seminários, assim como os cursos que já ofereci.
— A primeira reunião será uma discussão preliminar sobre o que seria uma psicologia mimética ou «interdividual». Você não precisa ter começado a ler o livro.
Abaixo, um texto gratuito sobre Um momo chamado desejo.
Girard me disse uma vez que Jean-Michel Oughourlian era «seu melhor amigo», e, embora eu tenha certeza de que algumas pessoas têm esse título, o psiquiatra certamente desempenhou um papel único em sua vida…
Cynthia Haven, Evolution of Desire
Como falar de uma obra «iniciática»?
Muitas vezes, antes de começar a escrever um texto, fico matutando qual a melhor estratégia.
Minha primeira inclinação é aquela que costumo reprimir. Sempre quero usar uma estratégia que costuma funcionar bem na ficção, e que é quase obrigatória na ficção mais «comercial»: dizer algo espalhafatoso, chocante, para deixar o leitor intrigado.
Porém, tenho a impressão de que esses começos com ganchos fortes podem parecer tão escandalosos que o risco maior acaba sendo o de afastar os leitores. Se eu fosse começar este texto assim, o leitor se depararia com a seguinte pedrada:
Há um psiquiatra em Paris que garante que o «eu» não existe: ele não passa de uma ficção.
(Se fosse o Instagram, eu deixaria uma enquete: você foi fisgado ou repelido por essa frase de abertura?)
Depois, há o risco de o texto simplesmente parecer uma carta de vendas. E admito que muitas vezes me divirto, sozinho, reescrevendo textos sérios no formato de uma carta de vendas ou de uma isca (bait, lembra que bait em português é «isca»?) de Instagram. Esses textos sempre me fazem pensar no «Torso arcaico de Apolo», de Rilke, que, na tradução de Manuel Bandeira, termina com a injunção «Força é mudares de vida». Du musst dein Leben ändern. Mudar de vida! A frase que mais lemos nos tabletinhos de vidro e metal que carregamos. Assim, teríamos:
Aquilo que você chama de «eu» não existe. Saiba como isso pode mudar a sua vida.
Mas passemos agora à segunda estratégia, que seria mais didática e, de certo modo, mais propriamente retórica. Digo «retórica» pensando em Aristóteles, que diz que o discurso mais persuasivo é aquele que se baseia em premissas com as quais o ouvinte já concorda. Assim, eu poderia lançar as premissas num crescendo: você concorda que o desejo é mimético; portanto, você concorda que o desejo vem do outro; portanto, aquilo que você chama de «eu» não passa de uma coleção de desejos que vieram dos outros…
No fim, exaurido, dividido entre minha tentação de sacudir o leitor, e a prudência do professor, acabo escolhendo uma estratégia que em parte veio da minha própria cachola, e em parte foi uma sugestão de Emmanuel Carrère. Sofrendo um bloqueio para escrever O adversário depois de uma extensa preparação, Carrère acabou desistindo do projeto. Então começou a escrever uma carta ao editor para explicar sua desistência e, nela, começou a contar seu próprio envolvimento com o tema e com a produção do livro. E assim começou a sair O adversário, livro eletrizante, que conta uma terrível história real, que a Alfaguara está prestes a republicar no Brasil.
De minha parte, tenho sempre a sensação de que todo texto começa quando encontro a ponta de um fio. (O estudante de Letras lembrará que «texto» tem a mesma raiz de «tecer». Aliás, o estudante de Letras sou eu mesmo.) Esse fio é sempre encontrado da mesma maneira: tendo desistido, começo a simplesmente escrever o que eu queria dizer, da maneira mais direta.
Senti muito esse dilema ao planejar a proposta do Seminário sobre Um momo chamado desejo, de Jean-Michel Oughourlian. Afinal, como você vai falar de um livro que de fato começa afirmando que o «eu» é feito do esquecimento de que os nossos desejos vêm dos outros, e cuja conclusão — aliás muito coerente — insiste que a nova psicoterapia será «iniciática»?
A nova psicoterapia não consistirá em dominar sabe-se lá qual sintoma pelo conhecimento, mas em viver seu desejo no reconhecimento. A partir de um certo grau, a aquisição dessa sabedoria se situará além da linguagem, será transmitida de maneira puramente mimética, de modelo a discípulo, de mestre a aluno. Terceira razão para qualificar essa formação como iniciática.
Ora, o problema do que é «iniciático» é exatamente aquele que apresentei acima. Para uns, uma verdade «iniciática» é evidente, ainda que tenha sido uma evidência conquistada a duras penas. Para outros, ela é motivo de escândalo.
Todos já vivemos isso em algum grau. Todos sabemos a diferença entre o ponto de vista da experiência, que hoje nos parece óbvio, e o ponto de vista da ingenuidade, que um dia foi o nosso ponto de partida. Lembro de uma resposta do cardeal Ratzinger, no livro-entrevista O sal da terra, que marca isso muito bem. O jornalista Peter Seewald pergunta a Ratzinger por que a Igreja não permite o matrimônio aos padres. O leitor ingênuo poderia esperar uma resposta a respeito dos deveres do sacerdócio etc. Mas Ratzinger, àquela altura já macaco velho, simplesmente diz: «Se a Igreja permitisse que os padres se casassem, um mês depois eles estariam pedindo o divórcio.»
Para outros, essa mesma verdade pode ser motivo de escândalo. E o próprio Oughourlian não se preocupa muito com isso porque não está escrevendo um texto de retórica, mas um livro em que, a partir dos princípios de uma psicologia baseada na teoria mimética de René Girard, examina os casos — expostos no subtítulo da obra: Histeria, transe, possessão, adorcismo — e ainda, como ele poderia ter acrescentado, a bruxaria.

Uma psicologia mimética ou «interdividual»
Um momo chamado desejo é a segunda tentativa de formalização de uma psicologia baseada na teoria mimética. Seguindo o estilo do próprio René Girard, que, apesar de ser um acadêmico francês, não primava pela obscuridade, Oughourlian produziu uma obra acessível. Densa, sim; mas basta lê-la com atenção, como faremos nas próximas semanas — ao longo, imagino, de seis a oito sessões.
(Se você assinar, o link para cada sessão será postado no «Quadro de Avisos», e a gravação será disponibilizada até 24 horas depois.)
Oughourlian conheceu a obra de René Girard no fim dos anos 1960 ou 1970, e o primeiro encontro pessoal dos dois rendeu uma anedota bem divertida. Foi Oughourlian quem quis conhecer Girard. Como ele explica na introdução de Um momo chamado desejo, ele já era psiquiatra, já tinha estudado o uso de drogas, e já tinha ido à Sorbonne estudar Psicologia a fim de obter uma visão mais humanista dos transtornos com os quais se deparava. Porém, encontrou uma miríade de saberes aparentemente desconexos.
Eu teria corrido o risco de diluir-me na imensidão desses saberes novos para mim se não tivesse encontrado René Girard. Girard propunha uma grade de decifração psicológica: a hipótese do desejo mimético; e uma chave de compreensão sociológica e cultural: o mecanismo vitimário. Foram essas duas lanternas que me permitiram percorrer o labirinto das ciências humanas — sem nele permanecer. Foi o trabalho que fizemos juntos que me fez descobrir que o saber podia ser adquirido com bom humor, e que a pesquisa teórica poderia ser feita em liberdade.
O resultado mais famoso do encontro entre Jean-Michel Oughourlian e René Girard ainda é, sem dúvida, o bestseller (com dezenas de milhares de cópias vendidas na França) Coisas ocultas desde a fundação do mundo. O livro contém a primeira tentativa de apresentar a hipótese mimética de maneira sistemática, começando pelo sagrado, pelos ritos e interditos das comunidades primitivas, e chegando a um estudo do desejo na sociedade moderna na última parte, intitulada Psicologia interdividual.
Se me permitem uma pequena digressão, muitas vezes me pergunto se a ausência de jargões misteriosos não «joga contra» a teoria mimética. «Interdividual» é o único termo técnico inventado por Girard. É um termo que indica que a teoria mimética estuda o que está «entre» (inter) os indivíduos, e que, na teoria mimética, os próprios indivíduos é que se formam nas relações, sem existir antes delas. Ainda me falta averiguar qual seria a diferença entre a psicologia «interdividual» e a psicologia «relacional» de Patricia A. DeYoung (ver Relational Psychotherapy: A Primer), mas essa é exatamente uma das tarefas do Seminário que começa na quarta que vem; aliás, é uma pergunta que pretendo explorar na primeira reunião.
Os capítulos de Um momo chamado desejo
O primeiro capítulo, «Da mímesis universal ao eu-do-desejo» é o mais importante. Nele, Oughourlian como que recua e avança ao mesmo tempo. «Recua» no sentido de tratar de questões que parecem inevitavelmente básicas para a maioria dos leitores, especialmente considerando que muitos, ao ouvir falar de um desejo «mimético» e considerar a possibilidade de que a origem de seus desejos não esteja neles mesmos, parece ter a sensação de ter acabado de descobrir uma barata subindo pela perna da calça.
Para esses leitores, não creio que eu possa trazer palavras de consolo: Oughourlian, aliás, radicaliza as palavras de Aristóteles no começo da Poética a respeito de o ser humano ser o mais mimético dos animais, afirmando — como eu já tinha dado a entender na minha introdução — que aquilo que chamamos de «eu», um eu que tem desejos «próprios», «anteriores» ao convívio com outras pessoas, não passa de uma ficção baseada no esquecimento de que esses desejos foram sugeridos…
Curioso — e o tipo de digressão que farei agora é típica dos nossos Seminários — é que, de um lado, tendemos a aceitar as experiências mais sublimes como experiências de dissolução do eu. Seja no amor, seja na mística, a sensação de uma conexão profunda em que o «eu» deixa de fazer sentido, ou em que você reconhece que só existe um eu porque existe um outro, parece uma evidência de que esse «eu» é mesmo, na melhor das hipóteses, uma ficção útil. De outro, o trabalho da psicoterapia pode muito bem consistir em desenterrar aquilo que você um dia preferiu não enxergar, tendo transformado essa negação num hábito, num esquecimento que virou uma segunda natureza. Agora, começar dizendo que «o eu se baseia num esquecimento» pode soar intrigante para uns, e escandaloso para outros…
Mas é exatamente porque o eu se forma nas relações que a psicologia de Oughourlian será mimética ou «interdividual». Isto é: ela parte da constatação de que os«indivíduos» são posteriores às relações que existem entre eles. Quanto a isso, pretendo, nas reuniões, propor uma comparação entre essa proposta e a da «psicologia relacional», usando como referência o texto Relational Psychology: A Primer, de de Patricia A. DeYoung.
(Este é o ponto em que posso dizer, devidamente autorizado pela editora, que em breve começarei a tradução de Understanding and Treating Chronic Shame, da mesma Patricia A. DeYoung. Sempre menciono o livro nos Seminários e pretendo propor reuniões para que o leiamos à luz da teoria mimética. Por ora, você pode acompanhar a editora que vai publicá-lo no Instagram.)
Agora, se essa posição de Oughourlian pode trazer alguma estranheza ao neófito na teoria mimética, ao menos ela facilita muito a exploração dos temas insólitos que aparecem no subtítulo da obra: «histeria, transe, possessão, adorcismo» — e também a magia e a bruxaria.
É no segundo capítulo que Oughourlian trata dessas últimas. «A magia é a primeira leitura da relação interdividual, a primeira forma de tomada de consciência da mímesis…» Isso porque a magia «funciona» por semelhança, como nos recordam os bonequinhos de vodu dos desenhos animados, e os anúncios na rua que prometem enfeitiçar uma pessoa desde que se tenha um fio de cabelo dela, ou algumas unhas cortadas.
Ainda no segundo capítulo, Oughourlian trata da bruxaria — e vale recordar que a fonte de Oughourlian, Jeanne Favret-Saada, foi discutida no Seminário «Bruxaria e marketing digital», cujas gravações estão disponíveis na assinatura Mímesis. A bruxaria encena a experiência mimética fundamental do duelo, e se parece (como o leitor há de depreender pelo título do Seminário que propus) muito com uma experiência incontornável das redes sociais. A situação descrita por Jeanne Favret-Saada numa região do interior da França que ela chama simplesmente de «Bocage», na década de 1960, é estranhamente parecida com algo que vivemos talvez todos os dias com nossos tabletinhos de metal e vidro…
Hoje, alguém disse que você está mal. E você está mal, não está? Você está vivendo abaixo daquilo que foi sonhado pelo seu orgulho. Está acima do peso, ou abaixo; a conta bancária não está rica o suficiente; faltam-lhe virtudes, ou então prazeres; ou, numa versão mais profunda, você se sente fundamentalmente errado, fora do eixo, se é que um dia esteve nele. Hoje, alguém nomeou para você o seu problema. Alguém que já esteve onde você está e sabe como é. Se você estivesse no Bocage francês, essa pessoa que nomeou o seu problema seria o «anunciador», e seu anúncio seria: «você foi embruxado por um bruxo; eu sei porque também já fui»; em seguida, você saberia que precisa procurar um «desbruxador» (ver a nota 1 abaixo). O mais delicioso é que o «bruxo», na verdade, não existia; «bruxo» é apenas um termo acusatório, que poderia designar, na mais perfeita aleatoriedade… a primeira pessoa que passasse na porta da sua casa! Conhecemos bem, hoje, essa mentalidade: os culpados de «nós» estarmos aqui «nessa situação» são sempre «eles».
No mundo francês da bruxaria, o «anunciador» não era a mesma pessoa que o «desbruxador», isto é, a pessoa que faria a mandinga para vencer o «bruxo». Essa vitória seria obtida por meio de mostras de força, e da encenação, obviamente de boa fé — é fundamental que todos os envolvidos acreditem na bruxaria —, um duelo simbólico e ritual com esse «bruxo» desconhecido, duelo esse que incluía atos perfeitamente inócuos como esquentar uma panela cheia de sal enquanto o embate era narrado com muito drama e empolgação. Essa encenação poderia ter efeitos terapêuticos reais, levando as vítimas a acreditar que foram devidamente «desbruxadas».
Na internet marqueteira, o «anunciador» e o «desbruxador» costumam ser a mesma pessoa. O que está em jogo é, como no duelo, uma transferência de força: siga as instruções que estão contidas no meu produto high ticket que você vai sair dessa lama. As semelhanças são tão gritantes que, quando comecei a ler Désorceler («Desbruxar»), de Jeanne Favret-Saada, não consegui nem dormir; precisei ler o livro até o fim.
Embora tenha sido o tema do capítulo II que tenha me impedido de dormir, é no capítulo III que é tratado o tema da possessão. Tema com grande potencial de escândalo, pois nós, católicos, decidimos formular a nossa religião nos termos de um duelo entre o «natural» e o «sobrenatural» — duelo esse que, além de não fazer sentido, estamos fadados a perder. (Se você ler o livro de Oughourlian ou assistir ao Seminário «Bruxaria e marketing digital», verá a importância de abandonar a lógica do duelo. A vida não é uma guerra, não é uma batalha; ela é, por exemplo, uma aventura.) Assim, qualquer tratamento desmistificador do tema da possessão pode servir de gatilho para católicos que, inspirados sem saber por filmes como O exorcista e O bebê de Rosemary, são mais ciosos dos raríssimos casos — e põe raríssimos nisso — em que a própria Igreja Católica, hoje, joga a toalha e manda chamar o exorcista, do que dos casos em que a Igreja prefere chamar o psiquiatra mesmo. O que não significa, aliás, que, dentro de um grupo, como uma igreja particularmente pneumática, um «exorcismo» — isto é, a despossessão — não possa ter um efeito terapêutico. Mas isso mesmo reforça aquilo que diz Oughourlian, que nos convida a enxergar a possessão não como fenômeno natural, mas cultural.
E embora se detenha bastante no episódio real de 1634 narrado no livro Os demônios de Loudun, de Aldous Huxley (valendo-se no entanto de outras fontes; deixo esta porque é mais fácil de encontrar), para falar da possessão «demoníaca», Oughourlian também estuda a possessão e também a despossessão como algo que pode ser desejável ou até terapêutico. Cá mesmo no Brasil temos as entidades que «baixam», e também o estado de morte ritual em que os futuros «possessos» não são possuídos. Temos, no mundo inteiro, os imitadores… E eu mesmo me perguntaria se, no caso da mediação externa da teoria mimética, em que você imita aberta e conscientemente um modelo, não há, de certo modo, um desejo de «possessão» pelo modelo. Se eu quiser escrever um soneto como Camões, não estarei «possuído» por ele? Ao tentar ir fundo na teoria mimética, não estamos tentando imitar o pensamento de Girard, de Oughourlian? O psicanalista não gostaria de pensar como Freud, como Melanie Klein?
O exemplo acima tem algo de provocador, porque no quarto capítulo, dedicado à histeria, Oughourlian compra uma briga feia contra a psicanálise, especialmente contra a noção de «Inconsciente». No espírito do Seminário, pretendo ler alguns textos-chave de Freud para ser seu advogado.
O capítulo diz ser sobre a histeria, mas é principalmente um grande resumo do que foi dito até então, com reforços. Oughourlian insiste numa tese que, devo admitir, para mim é muito simpática. Os projetos desmistificadores corriam o risco de deixar à mostra a interdividualidade e, com isso, o fato de que o desejo do outro é anterior ao eu. Numa visão que pode soar um tanto conspiratória (mas os textos de psicologia com frequência soam conspiratórios, misteriosos, e é normal que seja assim; se não tivermos uma área da conspiração, a conspiração pode infiltrar tudo), Oughourlian insiste que o sagrado que precisava ser protegido estava na noção de que «EU tenho o MEU desejo, que é DIFERENTE do seu». Assim, Freud teria criado o «inconsciente» como uma parte desconhecida do próprio sujeito, uma parte com sua mitologia própria, onde forças titânicas lutam entre si, e que tem suas vontades, as quais brotam na consciência ou aparecem inadvertidamente aqui e ali. Para Oughourlian, ao contrário, só faz sentido falar em «inconsciente» no sentido de «algo que não é percebido»; é a méconnaissance (palavra francesa da língua comum, que significa «o desconhecimento de algo que no entanto é relevante) que faz com que não percebamos que o desejo que atribuímos ao «inconsciente» na verdade vem… do outro. De outra pessoa. Por isso, Oughourlian define a crise histérica como o contrário da possessão: ela é a afirmação de que o desejo é meu, meu, meu!, e que o outro está me perseguindo.
(Nesse sentido, para mim é inevitável pensar que nossa cultura, hoje, tem algo de histérica. Boa parte do que escrevemos é para explicar que eles nos ameaçam, que precisamos manter eles do lado de fora, eles, os bárbaros nos portões. Antes, apenas a direita era assim. Agora, a esquerda também é, e esse é um dos aspectos da vitória trágica da direita: a verdade da violência escancarada suplantou as aparências de civilidade, que ninguém mais se dá ao trabalho de manter. Mas esse é outro tema.)
No capítulo V, o último, que trata de hipnose e sugestão, temos a discussão da forma mais evidente do desejo mimético, em que um sujeito acata explicitamente o comando do modelo. Esse capítulo pode ser particularmente importante, também, para a discussão da «influência» (ou, como gosto de dizer, a influenciação dos influenciadores) do marketing digital, mas não porque este tenha trazido algo novo para o cenário, e sim porque apenas explicita uma tendência que já vinha de longe.
Creio que vivemos a época do abandono da persuasão racional. Lembro de falar disso com uma professora durante o doutorado. Estávamos estudando Shakespeare e o florescimento da retórica na era elizabetana, e então eu disse: hoje isso não existe mais, porque queremos persuadir os outros de maneira irracional. Usamos truques miméticos: espelhamos os gestos de uma pessoa com quem queremos criar rapport, isto é, aquela sensação de que estamos à vontade e conectados. Exibimos as mãos ao falar para sinalizar que não temos segundas intenções. Acreditamos que boas roupas e uma boa voz valem mais do que bons argumentos, até porque bons argumentos demandariam uma atenção que raras pessoas estão dispostas a dar.
O marketing digital, como eu dizia, apenas escancara isso. Da mãozinha com dedinho apontado para o link que você deve clicar (quando falam «neuromarketing», é dessa mãozinha que estão falando) aos diversos truques confessadamente hipnóticos que pretendem induzir — induzir, não convencer racionalmente! — o cliente a comprar algo que ele não quer, estamos no terreno do irracional, isto é, daquilo que está fora da razão, fora da consciência, fora do «eu».
E não que isso em si seja malévolo. Estar bem-vestido pode ser apenas um sinal de respeito, e qual o problema de exibir as mãos? Mais do que isso, eu mesmo, ao escrever este texto, adoto um certo estilo, uma certa voz, com o objetivo de tornar o leitor simpático às minhas ideias. O estilo é feito de palavras, mas ele almeja algo fora do que é puramente verbal.
Este é um dos ônus mais terríveis que nosso mundo nos trouxe: o tempo inteiro alguém está tentando sequestrar nossa capacidade de desejar, o que acaba gerando, em muitas pessoas, a sensação de paralisia, como se várias vozes estivessem dando ordens diferentes ao mesmo tempo. A cada vez que eu mesmo entro no Instagram, não sei se faço uma pós em neuro-alguma coisa, um retiro de yoga, exercícios de alta intensidade para homens que se aproximam dos cinquenta anos, ou compro um apartamento em Paris (possibilidade que, digamos, ainda precisa ser trabalhada). E é por isso que eu também, periodicamente, me afasto das redes, e escrevo, como escrevi este texto, usando um caderno, uma caneta, um teclado, e o meu iPad mini 5, velhinho mas que ainda funciona lindamente.
Sem ter sido escrito com essa intenção, Um momo chamado desejo, mesmo que toque em tantas questões que parecem dizer respeito ao extraordinário, como a possessão, mostra a perfeita continuidade que existe entre esse extraordinário e a nossa vida ordinária: afinal, o possesso fala com a voz do modelo, e você compra o que não quer ouvindo a voz do influenciador que manda você comprar…
NOTA
(1) Traduzi o termo «desbruxador» em total fidelidade ao texto tanto de Oughourlian como de Favret-Saada, e expliquei essa opção aparentemente contrária à morfologia (que sugeriria não «desbruxador», mas «desembruxador») numa nota de rodapé, que é a nota 36 do Capítulo II. Por razões que me escapam absolutamente, a editora optou por usar «desembruxador» no lugar de «desbruxador», mutilou a nota de rodapé em que explico a opção, e, em vez de fazer dela uma Nota do Revisor ou Nota do Editor, manteve-a como se minha fosse, isto é, uma N.T., Nota do Tradutor. Incluo abaixo o texto da nota que foi enviada à editora.
Em francês, bruxo é sorcier ou ensorceleur; o verbo correspondente é ensorceler. O termo désorceleur vem de Jeanne Favret-Saada, traduzido aqui como “desbruxador”. Como Oughourlian insiste na distinção entre envoûtement / envoûter (“feitiço”, “enfeitiçar”) e ensorcellement, sorcier, o termo “desbruxador” é inevitável. Além disso, pode parecer que o certo seria “desembruxador”, mas é preciso ser fiel ao original francês, que, em vez de ser désensorceleur, come o -en-, é désorceleur, com o verbo correlato désorceler, que aliás dá titulo a um livro essencial de Jeanne Favret-Saada. (N.T.) (O livro também está disponível em inglês com o título de The Anti-Witch.)



Eu apostaria que você está certo quando supõe que a falta de umas "palavrinhas mágicas", uns termos mais estrambóticos, jogam contra a teoria mimética, ou pelo menos deixam de favorecê-la diante de um mundo de ideias comuns com nomes extravagantes.
Eu tenho alguns alunos a quem eu ensino copy, e uma coisa que eu sugiro sempre, que torna qualquer método mais interessante à primeira vista, é desenvolver para o que vendem (eu os ensino a criar um "método de transformação" para ser vendido e entregue por meio de um "programa de acompanhamento") uma narrativa baseada no conceito do "Mecanismo Único". Basicamente, trata-se de uma forma de apresentar a oferta a partir de uma elaboração que faz até mesmo da ideia mais trivial algo sofisticado, com aquele perfume de pesquisa científica e respaldo acadêmico; e eu sempre uso a Teoria do Desejo Mimético como exemplo. "Perceba que nome", eu digo. "Você suspeitaria de que uma Teoria do Desejo Mimético fosse o trabalho intelectual do tiozinho do carrinho de pipoca? Jamais! Também não suspeitarão quando ouvirem sobre o seu, sei lá, Paradoxo da Produtividade Oculta. Mas, para isso, tudo dentro dessa elaboração tem de ter seus próprios nomes ÚNICOS."
Agora, quanto ao resto do texto... Queria muito achar palavras, mas não seria exagero dizer que tudo isso me tirou um pouco o fôlego — considerando o que eu faço por dinheiro, deve dar para compreender. Já venho lendo suas publicações há vários meses, mas isso, agora... Acho que fui bruxado, e só vou me desbruxar depois que vir o que tem esse bendito Seminário...