Quebra-Cabeças #014
De Fernanda Mimética Torres ao diabo em nosso coração

Fernanda Mimética Torres, ou: a psicopolítica — «Nós somos cegos para a nossa própria cultura, mas ao mesmo tempo queremos que o mundo veja o que está perdendo», teria dito a globalizada Fernanda Torres. Mas não é o caso de interpretar a frase como mais uma atualização do «complexo de vira-lata». Podemos ir um pouquinho além.
Todos queremos ao menos um pouquinho de prestígio das pessoas a quem atribuímos prestígio. É chato viver um amor não correspondido. De que adianta fazer tanto esforço se «ninguém» (entre aspas porque significa «nenhuma pessoa a quem atribuímos prestígio») vai notar?
Ainda temos o agravante de vivermos, como aliás todas as culturas do mundo, um amor não-correspondido com a cultura americana. Sabemos quem é Lindsay Lohan, mas eles não sabem quem é Fernanda Torres. Ora, como assim? Nas imortais palavras de Achado de Massis, «cousa é que admira e consterna».
Esse amor não-correspondido levava, na minha juventude, a populares expressões de ressentimento. «Brasil: quem te ama e quem te USA.» Potente advertência geopolítica ou caricata lamúria de amante esnobado? Creio que o tempo torna a resposta evidente. E, se não o tempo, então a frase de Fernanda Torres.
Não que o vira-lata deva passar a fazer afirmações em frente ao espelho. Se o vira-lata é capaz de enxergar esse ressentimento em si, não pode enxergá-lo também nos outros, e admitir que ele próprio pode ter um prestígio que nem imagina, um prestígio «americano»? Penso na nossa direita, que fala mal da grande mídia, e no quanto a grande mídia poderia baixar os ânimos do Brasil se simplesmente desse mais espaço para a direita, a qual, como sabemos, pode ser tão folclórica quanto a esquerda.
Por ora, a esquerda ainda tem prestígio para oferecer. Mais ou menos como o tzarismo em 1880. Contudo, imagino que ela considere reconhecer a direita tanto quanto o New York Times cogita abrir uma seção só para falar do cinema brasileiro. O vira-lata brasileiro nem sequer cogita que tem também seus Globos de Ouro para dar.

O Leopardo — O romance eu nunca li, mas o filme O Leopardo, de Visconti, eu vi várias vezes. No século XIX, o príncipe de Salina (uma ilha ao norte da Sicília, mas o príncipe mora na Sicília mesmo), que já sabe tudo sobre a relação, digamos, problemática entre revolucionários e aristocratas, decide dar dinheiro para a revolução e aliar-se com a burguesia. Ele não gosta nem da revolução nem da burguesia, mas sabe que, para que tudo continue igual, é preciso que tudo mude.
É essa sabedoria prática que eu esperava dos nossos vira-latas.
(Com isso não estou eu mesmo pleiteando espaço na grande mídia. Acho, isso sim, que ela deveria dar espaço para o duplo mimético do Sakamoto.)

Um ano de seminários — A verdade, bem, a verdade é que tudo começou quando me pediram uma espécie de consultoria mimética para falar sobre emagrecimento, e eu fui estudar Anorexia e desejo mimético, de René Girard. Mas eis que o sujeito do «me pediram» parou de me responder, e eu pensei: bom, eu poderia discutir isso aqui com outras pessoas. E assim surgiu o primeiro dos Seminários de Teoria Mimética — e embora um deles tenha tratado de tecnologia, espero ter mostrado, numa aula, como o sagrado primitivo era também uma tecnologia. Até porque esse sagrado já foi chamado até de «máquina de fazer deuses»…
Depois, falamos de bruxaria e marketing digital. Fiquei siderado com a obra de Jeanne Favret-Saada (o livro linkado também está disponível em inglês), que estudou a «bruxaria» numa área rural da França na década de 1960. O que ela descrevia se parecia demais com o marketing digital de direita no Brasil de sessenta anos depois. Era tudo uma questão de força e de duelo. Não que houvesse «bruxos»; «bruxo» é um termo acusatório que serve para que você contrate o serviço do «desbruxador» — o marqueteiro que vai designar um inimigo (um «bruxo») e dar instruções para você se proteger e recuperar sua força.
No texto 126 da newsletter também apresentei uma das discussões de um dos seminários, relacionando perdoar e ter fé. Afíemi, um dos verbos gregos traduzidos como «perdoar», tem simplesmente o sentido de «liberar». Não é um sentido moralizante, e o próprio Evangelho de Mateus (cap. 18) fala em perdoar «setenta vezes sete» junto de uma parábola a respeito de dívidas. Perdoar é liberar do passado, mas também dar crédito para o futuro. Essa é a questão que está no cerne dos episódios especiais de Euphoria.
Também discutimos o amor e a «limerência» de Dorothy Tennov, e talvez prossigamos no tema (não há aulas previstas ainda, mas tenho algumas ideias ainda para este mês). Usamos a distinção entre amor e limerência feita por Heidi Priebe e creio ter demonstrado que a limerência é uma forma do double bind girardiano.
Tivemos outros temas. Estamos formando um grupo. Hesito em usar a palavra marqueteira «comunidade». Mas este ano vamos continuar.

E aliás — Priscila, minha esposa, também está com uma Oficina de Tradução. O texto escolhido é minha tradução de Vidas de meninas e mulheres, de Alice Munro. Assim, poderei defender o que fiz junto aos participantes — ou, por que não?, aceitar suas críticas.
Numa nota pessoal, eu estava traduzindo esse livro quando comecei a sofrer de dores crônicas. Na época, eu achava que tinha um problema clínico, e na verdade era um problema osteopático, que só consegui diagnosticar depois de sete anos, por conta própria, e com a ajuda do Dr. Google, porque os vários médicos que consultei não me ajudaram.
(Eu tinha — e ainda posso ter, se os devidos gatilhos se alinharem —, ao menos uma vez por semana, uma dor de cabeça incapacitante que produzia náuseas rodopiantes. Era um problema muscular que se refletia na articulação temporal-mandibular. Quando enfim percebi que a dor começava na têmpora esquerda, o Google me deu a resposta em segundos.)
Talvez eu devesse ter começado a falar das dores como Nelson Rodrigues falava de sua úlcera, para a qual ele sempre tinha um prato de mingau pronto, esperando-o no fogão. Eu tentava curar a náusea — na verdade, a sensação toda era de uma ressaca braba, mas sem ter bebido uma gota de álcool — com brownies e Coca-Cola. Cheguei a ter chocolates guardados especificamente para esse propósito. O alívio durava poucos minutos.
Mas Alice Munro. Foi minha terceira tradução dela. Em geral, traduzi ensaios, textos em que o «conteúdo», digamos, era o mais importante. Eu me esforçava para produzir as frases mais claras em português porque (em geral…) sentia que essa era a maior preocupação dos próprios autores traduzidos. Agora, um texto de ficção de uma ganhadora do Nobel tem (em geral…) aquele algo a mais que facilmente pode ser perdido.
É tolice ficar falando em «tradutor traidor», porque traduzir é como reproduzir uma receita sem ter os mesmos ingredientes, e ninguém chama de «traidor» o brasileiro que decide produzir seu pesto sem usar os pignoli que por aqui custam uma fortuna. (Por outro lado, lembro de ver num supermercado em Paris um pacotinho inho inho de amêndoas laminadas por nove euros.) É óbvio que não vai sair igual. O que não significa que o resultado não será interessante.
O diabo no teu coração — Lembro de quando esta canção de Fito Páez foi lançada. Tenho a ilusão de ouvi-la descendo uma escada rolante no edifício Assembleia 10, no centro do Rio, mais de vinte anos atrás. Ainda hoje, é uma das obras da cultura pop com mais intuições miméticas, e o vídeo deve ser imbatível. Quem está no curso a respeito de Eu via Satanás cair como um relâmpago entende perfeitamente os versos
Te haces la chica sín taboos
Pero sufrís baja presión(«Você finge que é uma garota sem tabus,
mas sofre de pressão baixa»)
e quem fez o Seminário sobre Desejo Mimético pode entender, talvez de maneira generosa, admito, que o vídeo da canção mostra a passagem da mediação interna para a mediação íntima, sem a passagem pela mediação externa. Esse é o nosso dilema moderno: estamos fadados a esse mal-estar perpétuo, essa longa festa de Yulia Mikhailovna, sem resolução, sem o retorno do sagrado que nunca mais existirá. Em termos técnicos, teremos de passar da mediação interna (todos contra todos, mas principalmente no sentido de cada um contra cada um) para a mediação íntima (cada um a favor de cada um).
Sacate el diablo de tu corazón:

